terça-feira, fevereiro 08, 2005

A crise dos 30

Todo mundo fica por ai dizendo que quanto mais velho você fica, melhor as coisas lhe parecem. Totalmente "bull shit". Quanto mais velho você fica, mais chata a sua vida fica. Depois dos 30 você só tem responsabilidades, metas que você traçou as 20 e que não está nem perto de cumprir. O relógio está sempre contra você. O frescor e a energia da juventude se tornam breves lembranças.

Quando você sai dos 20 e chega aos 30, precisa pensar no emprego que ainda não é seu, no apartamento que ainda não comprou, no namorado que não arrumou, nos amigos que já se casaram e que deixaram você para trás, em cremes para rugas e envelhecimento precoce, aposentar as mini-saias para não parecer uma tia ridícula. Precisa parecer feliz para o terapeuta, para ele não te entupir de droga da alegria, ir a festas com outras amigas solteiras e torcer para não ficar no canto dos casais hiper, super, bem casados. O pior, acaba aceitando convites de amigos casados e você não tem a mínima idéia o porquê do convite. Parece uma cena de "Bridget Jones".

Aos 18, eu conheci o JP Vicente. Ele tinha 23 e era jornalista da Reuters. Aos 23 anos, ele era tudo o que eu queria ser aos 23. O JP era o cara que tinha a vida planejada e quase bem resolvida. Ele era um jornalista bem sucedido, morava sozinho, ganhava bem, tinha um carro do ano, uma namorada e estava sempre entre NY e Sampa.

Durante uma de nossas várias conversas, ele me disse que não sabia se havia feito as escolhas certas, afinal seus amigos ainda não sabiam o que fariam da vida e passavam muito tempo tocando em bandas de fim de semana, enquanto isso ele estava stressado e se preparando para a próxima reportagem de economia. Essa resposta me pegou de surpresa, afinal ele era o JP , forte e conquistador. Eu me lembro de ter reagido com um "mas você é quem está no caminho certo", acompanhado de um sorriso ingênuo.

Hoje o JP está perto de completar 35 anos, ele faz aniversário no próximo dia 26 de março, mora NY, deve ter um bom emprego, está casado e se bobear é pai. (By the way, como todos os outros meus amigos).

Aquela conversa me fez refletir muito sobre o futuro, mas infelizmente não fui esperta o suficiente para planejar o meu futuro. Diferente do JP, deixei a vida me levar. Fui para onde as oportunidades pareciam certas, mas nunca soube enxergá-las de verdade e no final acabava perdendo o bonde. Muitas vezes, não deu tempo nem de sentar na janelinha.

Eu estou com quase 30, faltam poucos dias, e nao cheguei próxima a nem um décimo do que eu queria aos 20 e o pior não sei mais o que eu quero. Com isso o planejamento já desceu pelo ralo da pia do banheiro de visitas.

De todas as coisas do meu passado, sem dúvida alguma, são as conversas com o JP que eu sinto mais falta. Suas palavras e sua voz pareciam sempre tão sensatas, tão certas, tão amigas. Infelizmente o tempo tem a crueldade de apagar as coisas boas também. Hoje o JP é uma lembrança na minha vida e provavelmente eu não sou nem isso na vida certinha dele.

Quanto mais se vive, mais se tem amarguras e coisas das quais você se sente profundamente saudoso. Situações e pessoas que não voltam. De que adianta viver tanto se é preciso viver esquecendo e deixando coisas para trás? De que adianta viver tanto se no final só lhe sobram lembranças? Na minha humilde opinião, a própria vida é mais cruel do que qualquer outro castigo que se possa ter em vida.

Quando a saudade bate profundamente, vou buscar em cenas de filmes que vimos juntos, fotos de NY e as palavras dele, que ficaram na minha mente. São nelas que eu encontro um desafio de seguir um rumo. Independente de ser planejado ou não. Não importa mais. Já faz mais de 8 anos desde a última vez que eu vi o JP e está é provavelmente a única lembrança real que tenho dele. A voz firme, as palavras determinadas no momento em que ele me disse adeus! Não era e nunca foi um até breve, mas sim um adeus consolidado. Seus olhos verdes, atrás das lentes dos óculos, deixavam transparecer a verdade que eu dificilmente queria acreditar.

Sempre me disseram que os anjos da guarda aparecem quando mais precisamos. Bom, se eu pensar assim, o JP foi o anjo que apareceu no momento em que eu precisava crescer desesperadamente, sair do conto de fadas e viver o mundo real, por mais cruel ou perfeito que ele pudesse ser.

São dos momentos bons e ruins que vivi ao lado dele, que eu tiro o fôlego para ir em frente e acreditar que existe um plano, basta encontrar a primeira ponta do fio. Por mais nostálgico que isso pareça, me sinto feliz em saber que as pessoas que foram importantes na minha vida, estejam felizes também, mesmo que elas não façam mais parte do meu cotidiano.

Voltando a crise dos 30, bem ela vai passar. Afinal, como tudo na vida, qualquer hora ela vira uma breve lembrança nesta minha vida pouco planejada e alucinada, até porque sempre existe a oportunidade de se dar mais uma volta no Central Park.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Puxa, li este post e é semelhante a crise que to vivendo rs rs rs mas to muito pior que vc....

9:33 AM  

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